Memória no espaço em movimento


    
   Propomos aqui um exercício prático, e mostramos algum caminho entre teorias e saberes. Esse pequeno ensaio trata do esquecimento. Esquecer é um exercício de memória.
A memória do esquecimento é vasta e intrincada, e se abre, torna-se uma rede sem fim de acontecimentos que a ampliam cada vez mais como nuvens que se esgarçam no céu. E nublados, falamos do que percebemos, da memória.

    O ensaio, portanto, trata da memória, e de sua ativa forma de pensamento, sua transformação e modificação. Lembramos o que desejamos lembrar na medida em que possamos re-significar a experiência passada, a fala do presente.

    Esquecer é mais difícil que lembrar. Para esquecer você aciona um passado no presente. Quanto mais sofrida e traumática a experiência, mais o volume de acontecimentos emergem. É o mesmo princípio do bem, do mistério de alcançar respostas positivas.

   Tudo bem que comparamos, fazemos analogia, traços de nosso passado humano, medimos, estabelecemos critérios por co-semelhança e fazemos ante a possibilidade de escolhas, de colher o que plantamos no pensamento, realizamos opções sobre o que aí se apresenta no estado latente do que se mostra suficiente. Isso é uma flor, aquilo parece um carro, uma pedra lascada lembra mais uma face.

    Lembramos das dores, dos sacrifícios de pessoas santas, de deuses terrenos e universais, da morte triste, do horror ante fulgurante beleza de uma vida amorosa. O valor ao espetáculo trágico pode ser a memória sem remissão do bicho instalado em sua busca por sobrevivência, um aviso do qual tomamos como exemplo para não sacrificar nenhum de nossos pequenos prazeres.

    O egoísmo não é original, o que é original é o caminho que o homem traça e percorre a seu modo.

    No caso da memória de um mal, a potência emocional entra pelos circuitos afetivos e os destrói. Há portanto uma transformação, o que poderia tornar-se alegria, amorosidade, crença e fé é tensionado ao seu contrário ou potencializa a exposição de pensamento-sentimento.

    Não há quem possa ainda demover isso com facilidade, como substituição. O mal causado produz marcas sobre o corpo etérico, e o pavor de rever isso faz com que a pessoa se torne alguém sem freios.

    Ninguém pode saber o que pode operar, o que ela pode realizar com esse espelhamento memorial do sofrimento. Seja qual for. Desde a perda de alguém, de um estado de perda de direitos, de um acontecimento social.

    Está presente na face oculta da memória o que fazemos, falamos, o que tratamos da vida. As nossas idiossincrasias sociais, o nosso comportamento não é algo que veio como que determinado, natural da espécie. O que somos é menos o que realizamos, fazemos, mostramos ser no mundo.

    Aprendemos ser o que somos no convívio cultural social. O jeito de falar, de defender verdades, de duvidar, o nosso acento, o modo como conversamos, as nossas expectativas. Isso acontece na vida humana como marcas de um selo do DNA, do passado filogenético, e das ações em que o conhecimento é levado, compartilhado.

    Quando há um dano de um bem social, uma ameaça, o medo da perda de um patrimônio social, da vida de alguém querido a memória ativa os significados com as emoções que no caminhar do pensamento se transformam em sentidos. Damos sentidos ao que está presente em nossa vida, incluindo o passado. Aliás, um passado que é retomado o tempo todo.

    A morte de um grande ditador como Stalin, Hitler entre outros traz ao mesmo tempo um alívio emocional para parte da população e de outro um sentimento extremo. Faz com que a memória atue a reagir com essa perda através de representações, muitas vezes caricatas da forma agressiva, autoritária.

    Há uma divisão entre uma memória com sentimento de alívio e uma representação de bem-estar, e de outra parte da população de perda de identidade. De qualquer maneira, ambos os grupos se utilizam de formas reflexas dessas personalidades violentas.

    Atuam contrário ao retorno do mal, mas se espelham no passado para agirem no presente, e de outra maneira, de um modo empírico de lugar-comum, a forma agressiva se mantém. Seja com intenção positiva ou com a intenção reacionária de um estado social anterior desejado.

    Ambos fazem quase o mesmo. A retirada de um monumento aumenta essa condição. Ainda mais porque para retirar algo, como a escultura do ditador, do mal-feitor, do julgado como negativo para a população necessita de documentação, de processo, de levante, de forças, de lideranças que agem com esse motivo, e por fim, a agressiva retirada do objeto - obra-artística, placa alusiva, etc. 

    Essa representação é o estandarte da reificação que Lukács percebe no ser social, a metafísica de um ser social que está materializada na conformação constante da cultura em nossa vida. Parece menos trágico, que as coisas sejam simbólicas, que tenham a profundidade da superfície, que alcance o provável da profundidade deleuziana, mas que feito representação basta. Como que uma sorte não haver críticas ou tê-las como modo representativo, caricato, seguindo modelos teses, doutrinas e manuais.

    Parece que não estamos livres das ordens alheias. Mas por que então nos fere tanto ou nos move os sentimentos a memória de um bem ou de um mal que nos sucede? Nossa arraigada tomada abrupta de decisão - biopsicológica -, filogenética história do passado humano? A resposta esperada de uma ontologia do ser social? A falta do meio caminho entre superfície das águas e a profundidade definitiva? O valor inerente das coisas, como que cada uma coisa-em-si revelasse por si o que é a sua própria existência? Onde fica, como diz Vygotsky, a vida relacional e interacional em sua diverso e múltiplo acontecimento que recaem sobre a singularidade de cada um de nós?

    De uma forma e outra se repete essa vontade em que grupos sociais lutam a ferro e fogo contra uma representação. Agora se potencializa a memória. O vazio onde esteve o monumento, a memória de sua retirada ante tantas lutas documentadas, as lembranças aumentam.  Podemos aproximar essas memórias colocadas na distância do passado e expressas no presente em que o agressor social, aquela alma centralizada é reapresentada. Críticas surgem e homenagens também, o que faz com que entre visões negativas e positivas, mais se estabeleça no presente a memória. E mais ative pensamentos, idéias, movimentos, e alastre o conhecimento sobre essas personalidades.

    Veremos que estudos científicos, pesquisas, trabalhos filosóficos e acadêmicos com o tempo se amontoam e são ainda mais compartilhados. Tornam-se marcantes, decisivos, presentes a partir da memória que não mais é a memória de uma população, ela retoma um valor universal como exemplo de um acontecimento trágico ou visto como um bem. De qualquer forma uma reconstrução com mais potência.

    Assim ocorre, em um exemplo mais fortuito, mais simples de nossa vida social, com a moda. Há tempos que estão no auge, no poder de um design ou de um modo de vestir ou usar algo. 

    As coisas, a ordem mercadológica se modifica, as formas saem de moda, e no tempo que passa, de repente retorna com um novo aparato, uma nova reconstituição. Com a nossa memória singular, orgânica, isso também ocorre. Parece atingir um valor que substancia o comportamento, a dizer que filhos de peixinhos; peixinhos são. Há algo que cria esse enlace entre culturas familiares, de amigos próximos, de uma comunidade, de um grupo social, de uma população que se faz, a cada espaço diferente.

    A homogeneização eugênica e comportamental levada à instrumentalização do dever (antes do direito), a tecnificar, relacionar a existência com as coisas de tal modo que a coisa se torna objeto de relação entra no processo de disseminação de aprendizados e de saberes como verdade única e suficiente.

    Assim não há críticas, o utilitarismo dos bens, o acesso à tecnologia, o uso das pessoas como coisas disponíveis, e o depresso à memória, ao passado em verdade confirmam uma situação de controle e dominação à beira do abismo relacional e internacional humanos.

    Como diz Habermas, não havendo leitores, não existem intelectuais. Os públicos se tornam alijados de subjetivações, - vivem por subjetivismo - (o que vale é o que não vale, o que serve e o que não serve a qualificar bem e mal em um maniqueísmo de responsabilidade-enquanto-dever-obrigação), e não conseguem abstrair, entender metáforas, saltar paradigmas, criticar, produzir novos saberes experiências da vida social.

    Acontece, porém, que a memória não se estanca, ela se torna plástica. Em dado momento, em um clique dos acontecimentos ela retorna. E novamente move-se o mundo para o direito social, para a democracia, para o bem criativo a ser compartilhado. No entanto, ainda assim, esse eterno retorno que nos lembra Nietzsche, é sempre desigual, nunca determinista no sentido factual de um sim e de um não em que se pode optar. Essa desigualdade remodela o estado memorial com novas qualidades, perdendo assim a sua ortodoxia aparente de sua originária posição.

    E o mais interessante disso é que a veemência de seu poder é tal que revoluciona a si mesma, a própria memória social se torna outra porém com mais potência.

    Cedo ou mais cedo ainda, sempre perto o que aparente estar longe, emerge a força memorial da população, indo para um lado ou para outro, mas se eleva. E muitos dos que acreditam estarem salvos de suas iniquidades serão ou destruídos publicamente ou elevados.

    Seja como for, a memória não morre, e a memória social é maior que o bem extinto. E é essa memória que recupera dos danos ou dos bens causados a outra face do conhecido.

    Lembremos que a história carrega consigo a fala do autor, a caligrafia de quem se apresenta nas entrelinhas de sua própria história.

    Assim acontece com nossa singularidade, moveremos alma e coração, pensamentos em ação, força que se pensa impossível para que se estabeleça a nossa verdade, a memória sempre ativa do que somos, do que fomos, do que apresentamos.

    Como podemos requalificar a nossa memória? Como podemos mudar o nosso jeito de ser?  Nosso modo de se apresentar no meio cultural social? Se estamos imersos no caldeirão da cultura, se somos a memória integral que apresentamos com nossas idiossincrasias, se temos em nós vivo o comportamento filogenético e ontogenético, se a memória emocional nos faz atuar, se é a memória afetiva tão presente, se as emoções estão mescladas com o gesto, com a nossa presença, se o pensamento-ação acontece.

    E, devido ao desenvolvimento das funções psíquicas superiores, e que as relações e interações humanas que marcam a vida humana com saber proveniente das experiências vividas e do compartilhamento do saber e do conhecimento, são completamente levados ao salto qualitativo através da emoção.

    Lembramos o mal pela emoção que nos causam, e vingamos o mal muitas vezes em nós mesmos, porém, podemos transformar a emoção numa estrutura significativa, direcioná-la de tal forma que as nossas bandeiras sejam outras, renovadas. E a nossa memória que jamais, nem no estado singular e nem social, deixará de existir, pode eliminar o mal pela raiz.

    Como fazer isso? Modificar os caminhos internos, os traços sinápticos de nossa memória para outro ambiente significativo, outra esfera mental-cerebral da realidade memorial. Em vários estudos, trabalhos de Brenda Milner é possível conhecer a prática das mudanças singulares.

    A Neuropsicologia nos ensinará a ocupar esses novos caminhos em sua prática com as emoções. Veremos que há muitos modos de transformarmos nosso processo cognitivo e emoção em uma memória valiosa.

    Um dos exercícios simples é a meditação no espaço em movimento. Tudo está em movimento, como mesmo sabemos através da física, no entanto, um espaço em movimento da qual não nos ocupemos com nada senão com as nossas percepções pode acontecer em um carro do qual somos passageiros, em um trem - quando houver trens de passageiros no seu país que tenha um percurso mínimo de três horas entre ida e volta -, em um vôo, viagem em um navio, enfim, sabemos, e você sabe bem que esses espaços em movimento estão próximos da nossa vida comum. 

    O que fazer? Primeiro encontrar um local onde se acomodar, segundo perceber o ambiente sem direcionar os olhos, acalmá-los e terceiro fazer um pequeno relato sobre o que sentiu ao entorno, e por último, usar essas emoções, esses pensamentos e sentimentos para se ocupar de algo que tenha a mesma característica, como chamamos aqui de espaço em movimento.

    Pode-se fazer em modo de lista, com desenhos, como possa ser a linguagem da qual tenha como recapitular, reconhecer e retomar dos significados presentes os sentidos diversos. E sempre será variante no momento em que realiza a nova experiência, a aplicação. Tudo se modifica para melhor.

    Você poderá andar de bicicleta, caminhar, movimentar algo, modificar um cenário particular, como mexer nos canteiros de um jardim, eliminar excessos ou coisas sem importância, buscar outras, mudar a posição de seus móveis, enfim, há muito que pode fazer se ocupando dessa experiência simples de uma viagem de ida e volta a um lugar com um tempo para reportar a sua percepção com pensamentos-sentimentos. 

     A memória não gosta de tinturas, de coisas fixas e finais como usar caneta. Ela se aviva enquanto houver desafios. O mundo cognitivo sabe que o escrito à caneta quer dizer: esqueça, já está marcado.

    Quando usa lápis em um roteiro livre, em uma caderneta sem aramados e sem pauta, tudo se complexifica e é disso que a memória gosta. Ela sabe que com a escrita à lápis tudo pode ser perdido. O que eu anoto? Anota o que sente, o que percebe, o que pensa, os desvios, as formas laterais, provoque a memória ativa, o pensar com sentimentos. Veja o que te leva a algum lugar do passado, entre em seu pensar afetivo.

    Estou nesse trem e sinto algo assim, uma pessoa passa com um perfume que me lembra isso e aquilo. Há um som estranho na voz daquela pessoa que me leva a um lugar. Os objetos estão dispostos de uma maneira peculiar.

    Vejo cores ou sinto algo que antigamente me reportava a um desejo de comer bolo. Enfim, o mais rasteiro pode se elevar à crista de ondas imensas. Experimente, faça isso sem planejar, aproveite um momento de folga, um dia que possa estar a sós consigo mesmo.

    De qualquer forma, a experiência de fazer algo sem motivo claro que o obrigue a pensar afetivamente pode ser um momento de uma particularidade de doce e viva memória.

    Quanto tempo? Eu, particularmente, realizei essa experiência por um acaso. Durou três horas entre embarcar e me acomodar, o trajeto propriamente, a descida no ponto final, um lanche com cafezinho - para não fugir da minha tradição cultural -, uma meia hora ou pouco mais, e o tempo de retornar.

    Não há um tempo fechado. Verá que temos desvios, coisas nos escapam, sem contar que acabamos entabulando bate-papos com desconhecidos. De qualquer maneira, ficamos um tempo sem-lugar, caminhamos sem nos mover, seguimos sem-querer, estamos seguros nas regras de segurança, nos mantemos em uma jornada da qual a experiência é única.

    Por que isso acontece? Porque movimentamos o que está em nossa volta transtornando formas sentidas em sentimentos novos. E porque é a ação inversa em que os paradigmas, digamos textuais da experiência, do perceptível imagético da experiência do passado, naquele presente vivido da experiência se desloca no tempo-espaço como um bem re-significado na ação ulterior.


    Você pode realizar esse empreendimento fortuito ou não, o que pretendi aqui é mostrar que a memória do que está ausente é maior do que a memória estabelecida em algo e que em nós, de muitas maneiras acontece o mesmo, ampliamos ou transformamos nossa memória, nosso pensamento-sentimento. O significado está encapsulado por emoções que se revelam como memória afetiva, memória social, memória traduzida em idiossincrasias, memória corporal, memória emocional rediviva, significativa.

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Charlie


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